O chefe secreto e as empresas Lean

chefe secreto gemba

O novo quadro do programa dominical da Rede Globo, o Fantástico, lançou no Brasil a série Chefe Secreto que se tornou frisson no país, principalmente entre os profissionais da área de gestão de pessoas. A série brasileira é uma adaptação do programa britânico “Undercover Boss”, que desafia altos executivos ou proprietários de empresas a deixarem os seus postos e assumirem, por uma semana, diversos papéis operacionais em suas organizações.

No quadro, esses executivos têm a sua aparência disfarçada, assumem uma nova identidade e acompanham de perto o dia a dia dos seus funcionários, atuando em diversas áreas da empresa, com diferentes funções e em diferentes unidades, vivenciando as mais inusitadas e engraçadas situações. A presença de uma equipe de televisão é justificada pela realização de um documentário sobre o mercado de trabalho.

A série tem como proposta possibilitar a estes gestores um tempo com as suas equipes para conhecer as pessoas que trabalham na empresa, saber a sua verdadeira opinião sobre os fatos, entender de perto os problemas enfrentados no chão de fábrica e aprender sobre os seus desafios e sonhos profissionais e pessoais dos seus colaboradores.

A proposta da série é inegavelmente sensacional e possibilita a estes gestores uma visão mais ampla da sua operação, bem como as fortalezas e oportunidades do negócio, fornecendo subsídios para ação mais efetiva e direcionando o processo de solução de problemas e melhoria contínua. O contraponto que quero trazer, nesta reflexão que me proponho a fazer, é que é uma pena que seja necessário a realização de um programa de televisão para gerar esta proximidade com o chão de fábrica.

Olhando a realidade das empresas que desenvolveram o Lean como cultura, esta não é uma prática esporádica e sim rotineira. Líderes de verdade não se restringem a sentar em seus escritórios o dia todo, todos os dias. Os líderes gastam seu tempo na operação, onde o trabalho está sendo feito, no lugar que chamamos de gemba. Na linguagem lean, se deve ir ao gemba, ao local real, frequentemente para engajar as pessoas que realizam o trabalho. Isso se chama genchi gembutsu, que significa literalmente vá e veja.

Esta é uma atitude primordial em um gestor lean, já que ir até o local onde tudo acontece fará com que entenda e tenha sua própria visão dos fatos que compõem os problemas, de forma a obter dados que possibilitem a tomada de decisão e a solução definitiva do problema em sua causa raiz. Aqui o chefe não é secreto e sim reconhecido por estar presente, por compartilhar o seu conhecimento através de boas práticas e ensinamento em situações adversas do dia a dia, que trabalha constantemente para o seu desenvolvimento e da sua equipe e desafia a todos na busca constante de melhoria contínua em tudo que se faz. Com o passar do tempo esse líder ganha o respeito dos membros da equipe e consequentemente se torna alguém acessível, engajando e motivando as pessoas na condução dos esforços de melhoria.

Que o Chefe Secreto do Fantástico seja o despertar de um novo modelo de gestão de pessoas e condução dos negócios rumo a uma cultura lean no Brasil.

Autor: Daniel Bonfim
Fonte: Lean Institute Brasil